CONSORTE SURTO

Tantas perdas desde então. Não é sobre elas que quero falar. Paradoxalmente, o que perdemos são as únicas certezas que temos. A ausência é coisa sólida quando memória.

segunda-feira, 30 de março de 2009

IX

Paródias, paródias, paródias... Paródias banindo tudo. Sentimentos importados. Desimportam os contextos. Atenha-se ao texto. Reviver tem lá sua originalidade. Deja vu? Nunca se viu com a atenção devida.
Como você se vê, nesse exato instante? Não me venha com assertividades. Não se defina. Não se definha vidas com fatalidades. Prova é que está bem viva.
O que deseja que te sirva? Café ou vinho? Dor ou dormência? Nada está em falta. Não se reprima por isso. Nunca já é tarde demais. Desça do palco e se dispa das tragédias que nunca bastam.
Como sei de tudo isso? Por não ser arrimo de família,fui o mimo de minha mãe. A vida sempre nos dá compensações. No que o mundo masculino me excluia, você, mulher, foi se tornando minha vida, predileta.
Assim como você, ela, minha mãe, também foi linda e, naturalmente, temida. Tanto que acreditou ser uma temeridade ser a mulher que queria ser. Quando ela quase foi, o homem muito branco, nada brando, lhe disse: seja como a sua mãe (sem saber na verdade quem era ela, a mãe). Ou seja, não seja, mulher. Foi então que se sucedeu a sua não vida. Quase como um Cristo, dos seus dezesseis aos sessenta anos de idade, não se pode narrar o que ela foi. Exatamente, sabe-se o que ela deixou de ser.
A sombra, sem sombra de dúvidas. À título de sentir pena de si mesma, se intitula velha e viúva. Vive em paz com suas desistências?
Ainda não sou velho e não estou viúvo, a não ser de mim mesmo. Não lamento nenhum dos que morri. Não sou homem de lutos. Luto contra os dias e me comprazo em matar a solidão das noites.

VIII

Você parece gostar mais da vida que eu. Eu gosto quando penso que estou ao seu lado.
É por isso que transgrido. Para ludibriar à mim mesmo. O tempo é revelia. Passa tempo e você não passa. Viverá enquanto não for substituida pela morte que evito.
Não é apego. É maturidade. Chegamos a um tempo em que tudo apenas se reprisa. É com você que quero repetir o que não houve. Inclusive os desentendimentos. Principalmente. Outra chance de se fazer direito.
Repetir é caminho certo para o sucesso. O fracasso não é exatamente a desistência. É recomeçar tudo do início, quando já temos mais que meio caminho andado.
Tudo velho, de novo. Mania de não se dar por nascido, não será o mesmo que se fingir de morto?
Foi o que você fez ao baixar a cabeça. Não nos matou. Ignorou que nos inaugurávamos. Bastava ter me fitado.
Ao todo, nos casamos sete vezes. Conta de mentiroso. Ainda não nos casamos, então. Julgávamos termos errado de pares. Insistimos na mesma dança alucinada, passos em falso, bem ensaiados. Toque de novo, Sam! É o vicioso prazer da despedida – a consagração do encontro. Agora já podemos dormir e viver sonhos. Nada de ilusões fantásticas.
A pior fuga é encarar fatos porque vai contra a natureza, o movimento é sempre um perder-se no porvir.
Irresponsabilidade maior não há que a obediência. É escusar-se da responsabilidade de ser livre – errante. Fazer escolhas é descartar oportunidades. É (sub)trair vida. É contrariar o infinito.
Somos o resultado do que não fomos. Covardes. Eis o que somos.

VII

Toc, toc, toc... Você continua alí, dançando em quadrilátero mínimo, linda, espera por mim. Outro cigarro. Não para adiar o encontro, mas para te dar tempo de te fazer conhecer a tua solidão e, portanto, não evitar minha chegada.
Toc, toc, toc... Oh de casa? Posso entrar?
A casa é sua. Você é minha. A alma parece ser idem dada à possessividades. Colecionar afetos até que se tornem as melhores recordações, até que indeléveis, quase imaculadas.
Vinte anos não se conta num dia. O palpável se contaria de fatos nos dedos da mão, e sobrariam dedos. A questão é contar impossibilidades. Mais que uma simples vidinha de um homem de meia-idade. Meia? Se durar mais uma década outra, me dou por satisfeito. Nem um dia. Não em dia. A inadimplência dos anseios cresce em proporção inversa às probabilidades.
Velho também não estou. Tempo implacável. Nosso encontro tarda, nunca falha. Sou tântrico, penso. Tanto que altruísta extremo em caso de fruição plural, gozo coletivo. Não descendo de Onam. Ninguém. Viva a imortalidade possível – a prole.
Foi sonho deitar contigo. E nem deitamos. Em pé, colados na parede que criou pare esse fim, a gente se fez sudário. Tuas costas nuas, suadas, juntamente com minhas mãos cravando, estão lá, gravadas. O reboco da memória se mancha, mas não se apaga.

VI

Para o não esquecimento, ainda trago comigo a nossa fotografia. Aquela em que não apareço. Posso ver claramente o meu lugar reservado ao seu lado. Teu sorriso é a prova de que me aguarda. Posava para a posteridade. Algo para ser revivido quando existisse mais. Fomos tão felizes.
Acompanhei de perto todas as suas, as nossas, gravidezes. Desejos mesmo, você só teve na segunda. Já não era mais novidade e você queria que se fazer notada. Sempre foi. Leite moça com sorvete, às duas da madrugada. A moça do supermercado, certa vez, me disse: não sei como o senhor não é gordo. Corro muito, minha filha, corro muito. Quanto lhe devo? Você engordou bastante. Como vocês mulheres são engraçadas quando não desgraçadas. Enquanto não chega o amor, se conservam esbeltas e bem arrumadas. Quando encontram o que sempre procuravam, se descuidam, engordam. Penso ser uma prova de amor – quero ver até onde ele me ama. Quanta bobagem. O amor não tem medidas.
As que estão solteiras e ainda assim não se cuidam, testam coisa maior: a vida.
Onde anda o nosso menino teu? Quase nada sei dele. Deve ser bonito, somos. Deve ser teimoso, somos. Deve ser inteligente, somos? Ele parecia pouco comigo. Lembro que parecia pouco comigo, salvo que em alguma coisa era também um estrangeiro.
Com as meninas ocorre diverso. Somos muito unidos. Sempre me visitam e acho lindas suas delicadezas de fingir que não cresceram. Minhas filhinhas.
A mais velha puxou ao pai. No natal passado me disse: Eu mesma não vou baixar a cabeça. Sei que o medo é o pior inimigo. Antes quebrar a cabeça que o coração.
Ela tem razão em não querer ter razão.
Se eu escrevesse somente pela razão seria como aquele tio escritor. Ficaria famoso escrevendo receitas de bolos. Minha fome é outra. Racionalidades me tiram o apetite.

V

Fui embora para tão longe porque não me agrada esperar por incertezas. Espero que você me compreenda. Fui para uma terra longínqua, bem a oeste do norte. À princípio, o fim do mundo. Entretanto, foi lá que tudo começou. Para ser sincero, eu não fui. Enviei outro em meu lugar. Alguém muito próximo que se passava talentosamente por mim. Ele me mantinha a par da minha vida através de cartas que me escrevia, diariamente. Através de sua escrita precisa e da minha imaginação imprecisa, vivemos tudo com uma quase total realidade.
Ele não fazia questão de pontuar suas narrativas. Assim, teria eu que reescrever tudo de novo, repetidas vezes, de diversas formas. Um dia ele me escreveu o seguinte: “homem serra inimigos”. O imediato entendimento que tive foi de que o homem e a natureza não se relacionavam lá muito bem. O que era uma verdade, também. Levei algum tempo para atinar que se tratava mesmo de um sujeito que esquartejava seus desafetos em pedacinhos com o uso de uma motoserra. Ele bem que me avisou, literalmente, mas dei para querer dar sentido literário à sentença de morte. O poeta é de um egoísmo extremo – vê poesia até onde não existe.
Quem não existe? O poeta ou a poesia?
Pelo que não ví naquela terra, o homem era um verdadeiro príncipe, sabia fazer-se respeitosamente temido. E Deus, por que temer? Deve ser porque vivemos desgovernados. E quem precisa? Ideologia antiga de se angariar fiéis e donativos. Somos educados para o desencontro, portanto. Pagamos caro por vaga no paraíso que nunca existiu. Inóspito co-existir num céu invertido.

sábado, 28 de março de 2009

IV

Ao chegar em casa ele já estava de pé. Quem dormiria no dia em que jogaria no lixo o próprio coração em troca de outro? Sabe-se lá o que o outro, o doador, havia passado em vida.
As corujas prenunciavam a desfeita. Toda noite pousavam na janela e esperam sua desistência. Ele também sabia. Certa vez, quis por fogo nelas. Contudo não o fez, seria de mau agouro. Resignou-se frente ao inevitável. Era quase sábio por isso. Mas não era. Era somente um homem cansado, a espera do repouso prometido.
Bem merecia e, de certa forma, fez tudo ao seu alcance para adiantar a chegada da partida. Como ele fumava. Fuga da solidão ou tentativa menos solitária de fazê-la uma amiga mais íntima. Era um bom médico, sabia com precisão o que estava fazendo. Quantas vidas salvas compensam a indução do fim da própria, o suicídio?
Saímos juntos. Antes do embarque, ele queria acertar algumas pendências – a mãe, tão ululante. Subiu as escadas do prédio dela com muito esforço. Desconversaram os assuntos importantes. Lacônicos, interrogavam e respondiam ao mesmo tempo: como vai? Vou bem, vou bem, vou bem... Tenho que ir, ele disse. Ela baixou a cabeça. Do lado de fora, o homem chora como um menino. Ainda tentei dizer que o amava. Ele também baixou a cabeça. Como somos bons nisso.
As corujas estavam certas, outra vez. Por volta de onze horas, ele foi ter com elas. Creio que finalmente ele estava de cabeça erguida. Não havia mais o que evitar. Com sorte estaria sentado, à direita e por direito que eleito seria. Oh, ciosa consciência, a nossa.
Foi quando me dei por mim, soube alí que a eternidade pode demorar mais que filhos. A espera pela dança prometida para o baile que viria e não veio, ainda.
Aceita esta dança? Na ponta da língua, treinada infantilmente no espelho que nos mente imagens e sonhos de belas nada adormecidas, mas ardentes, a esperar por nós.
Quando enfim diremos e fez-se o verbo? Quando aconteceremos, ao invés de tecermos dogmas e dúvidas, as quais, ironicamente, chamamos por objetividades? Deixe essas rezas de lado. Teus joelhos são lindos. Suas religações jamais serão atendidas. Sempre discamos o numero do engano.
Há uma mulher (nem tanto) para quem eu sempre ligo. Não é com ela que desejo falar. Nunca desejei, se quer saber. É que talvez ela fale em teu nome. Mas ela não fala. Não te conhece. Como você, ela também me mente o que preciso ouvir. Para me manter refém ela só me diz sim. O sim dela é o teu não, talvez. Então eu fico eternamente telefonando para poder ouvir o não dito pela derradeira vez. Quanto mais digo que preciso sair, mais ela me encerra. Inteligente que é, se deixa passar por burra. Burro que sou, acredito. Ela nunca me nega nada, como eu disse. Peço para me retirar. Ela me traz a chave. Porém, antes, muda a fechadura. Será assim até que eu acredite que não sei abrir mais uma porta e desista, por fim. Ela é da família das corujas, só que mais rapina.

III

Voltemos ao dia não havido. O não êxito foi hesitar. Não tenho dúvidas quanto a isso. Era para ser e não foi. Pude ver nos seus olhos quando baixaram. Dormiram no ponto, virgula. Estava escrito, eu lí.
Você buscava meus rastros no piso. Eu te seguia atento, no vento. Tudo perfeito, digno de um filme. Eu dirijo.
Desculpe-me pela demora. Caprichava no figurino. Primeiro plano, cena um. Ação! Após um longo trago, jogo o cigarro no chão, piso sobre e o esmago como a um inseto.
Incerto, entre o vício e a cura, te fito à trinta metros. Parece-me ansiosa e um pouco triste. Suas pernas não param. Sem sair do canto, você, vista daqui, parece dançar. Era desespero ou alívio? Por que o sinal da cruz? Sim, eu olho por vós.
Eu, altíssimo. Mais um gole para dar coragem. O útimo ato. É dispensável o ar solene. Não combina. Como disse Clarice, temos que estar distraídos. A roupa que você veste lhe deita bem, mas não casa com a cena. Finalmente desposará com a espontaneidade. Minhas condolências, mesmo assim. Subterfúgio. Queremos é fugir dalí. Antes de me responder que sim, você olhou em volta, refazendo a via sacra ilustrada nos vitrais, assimila toda a dor estampada no caminho. Pensou consigo: consigo sair dessa? Senhor, por que me abandonaste? O ladrão te ofertava um aliança-algema. Teu pai lavou as mãos. Eu trouxe um lenço para o teu rosto manchado de lágrimas e maquilagens borradas. Tua mãe assentiu com o teu martírio e chora. Depois ela mente a sí mesma que vai ser diferente. Abstrai-se a sonhar contente com outras pequenas vidas a preencher sua solidão.
Não me dou por vencido. A música de fundo: eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, eu vou te amar. Não cometa nenhuma besteira. Eu prometi que viria. Cheguei tarde? Já te expliquei, foi o figurino. Não desista, te rogo, merecemos uma outra chance, pela primeira vez.
Há poucas horas eu adormecia. Passei a noite na cama com uma mulher do norte, amazonense. Quente tanto quanto a noite. Não me recordo do nome. Você não vai se apresentar? Timidez é a antivirtude, pois aniquila a todas as outras. Capa da vaidade. Não tema, somos todos absurdos, abcegos, abmudos, abismais.

sexta-feira, 27 de março de 2009

II

Defeitos não são mais que virtudes não aprendidas ou não praticadas. Tenho muitos. O que quer dizer que sou um homem dotado de muitas habilidades, virtuoso. Sou um grande músico. Não toco nenhum instrumento. Não tocar me faz um escritor. A música continua lá. Minhas palavras tem uma melodia toda própria para quem sabe apreciar o silêncio em falsete.
Chegaremos ao dia em que falar será desnecessário, mais, inútil. Foi por isso que não nos cumprimentamos. Intuímos todos os atos decorrentes. De correntes estávamos fartos, nós.
Só lamento não conhecermos nossos netos. Tão mimosos e vivem a correr pela sala. Nos cansam de alegrias. Dormimos maravilhosamente bem aos domingos.
Essa disposição sem casa não nos deixa dormir. Insônia é mãe das inexistências. Descansar de que? Tenho que escrever para preencher as páginas que deixamos em branco na esperança de que a realidade cumpra seu destino de não ser.
Não desejo, assim, saber de seus amores, pois é tudo mentira ou fantasia, uma verdade sentida, provada, mas não vivida. Não nos beijamos, ainda. As ditas prostitutas, de tão éticas, honradas, nunca beijam seus clientes. Estão a esperar pelo grande amor de suas vidas. Virgens, imaculadas. Amém.
Foi muito sensato de sua parte, ficar calada. Gente sensata sabe que falar é trair covardemente. É uma ato de extremado narcisismo. Você já reparou que só escutamos quando olhamos também? Ouvir não é mais que captar ruídos vindos de lugar longínquo. Initeligível.
Você, certamente, ouviu meus passos quando nos cruzamos. Você escutou o que eu não disse? Era tão nítido. Quase um grito.

I

Ela lamentava seu destino. O noivo a abandonou sem nunca tê-la amado. Caso contrário não a largaria. Contrariando essa tese de que amor verdadeiro não fenece, ele a deixou por prova de que contrários se atraem, mas pela mesma razão, invariavelmente, também se traem, contraditórios que são os amantes.
Ele não a deixou. Apenas se foi. De outro modo como regressar? Não vê ela que partir não traduz fim e sim, recomeço?
Jamais ela se dará conta do que foi salva porque não somos gratos pelo inacontecido.
Naquela mesma noite em que foi vexatóriamente expulsa, no portão de entrada, milhares de milagres silenciosos engedravam sua escapatória. Milhares de tragédias não lhe sucederam. Uma bomba na Argélia, um furacão na costa do Pacífico, uma guerra de milícias, um estupro de outra filha, depressão na bolsa que ela não investia, uma mulher amputada do seio saudável, um caco de vidro engolido num gole de refrigerante, e mais sorte ainda teve de não ver o sepultamento do ex-futuro marido, pois negrumes não lhe caem bem.
Agora, solteira e linda. Quando bem poderia estar morta ou viúva. Sorte ou azar, dependendo dos fatos, ou não.
Ficou livre do não erro. Guardou-se de futuro.
Exatamente há vinte anos, esperei que você me viesse e ficasse pelos próximos vinte anos ou mais. Mas acontece que você não aconteceu, nem eu, nem nós. Apenas você e eu, sozinhos, apesar de algumas vezes acompanhados. Ausentes da gente, juntos, cheios de paz que não houve.
Essa estranha mania que temos de esperar, passivamente, pela sorte e não esperar, impassívelmente, pelos sortilégios. É um sacrilégio nos destratarmos tão bem.
Eu não te cumprimentei porque você baixou a cabeça no justo momento, injustamente, da passagem. Teria sido diferente. Talvez melhor. Com certeza, sabemos disso. O que queria evitar? É vital não ignorar os convites. Principalmente, quando se é a convidada, de honra, no seu caso.
Não venha me dizer que duas paralelas se encontram no infinito porque o infinito é terra que não alcança. Ando tão cansado.
Cá nos encontramos desencontrados e nem somos mais aqueles, perdidamente crédulos e jovens.
Tantas perdas desde então. Não é sobre elas que quero falar. Paradoxalmente, o que perdemos são as únicas certezas que temos. A ausência é coisa sólida quando memória. O presente, insólito enquanto possível e excessivamente dotado de futuro.
Por isso nutro simpatia pelas rugas e cicatrizes, assinaturas do tempo.
Ainda não estamos envelhecidos como queríamos. Podemos adiar um pouco mais. É o que sempre fazemos. Ou melhor, não fazemos. Protelamos as causas e nos entorpecemos com efeitos, não necessáriamente especiais.